Na Aldeia dos Malucos não era mau ser maluco: era um combate irracional entre a gente de lá sobre quem seria o pior. Talvez pior não fosse acertado dizer: ser maluco não era ser pior, emendemos lá o raciocínio! Ser maluco era não se encaixar na norma, era ser exceção à regra. Que aborrecimento era o normal! Já ninguém queria estar trancado de amarras aos sentimentos, dentro de uma caixa possivelmente aberta, com a tampa posta ao de leve na esperança de ser detida. O mundo foi feito para ser de todos. E não éramos todos do mundo? Preenchendo de forma semelhante partes distintas do seu padrão, que bonito que era!
A Dona Margarida comia todos os dias a hora certa – era às três e um quarto, sem falhar um escasso segundo – um bolo de arroz. E ai! de quem lhe viesse entregar o bolo um segundo antes do pretendido. Mas todos os pasteleiros, donos de cafés, empregados de balcão, sabiam da teima da Margarida e não teimavam com ela. Ai deles se teimassem!
Alfredo Serafim, senhor de bons modos, nunca saía de casa sem a sua gravata vermelho carmesim, como a gostava de definir. Era extremamente específico com as cores, não existisse uma paleta de cores de A a Z, desde o azul-turquesa ao verde-floresta. E saberia alguém nomear corretamente esta quantidade de cores? Alfredo Serafim, pois claro, teria sempre a sua razão, senhor conhecedor de cores como nenhum outro.
O jardineiro da aldeia era um homenzinho pacato que desconhecia tudo do mundo, só lhe sabendo as flores e por aí além. Por isso se tornou jardineiro. Ninguém lhe sabia o nome, e desconfia-se que nem o próprio saberia, pois só conhecia o nome às flores e ervas e árvores. O seu nome não seria Antúrio nem Narciso, pois então era certo de que o saberia. Não tinha importância, pois as pessoas apenas apontavam na sua direção para lhe falar. Quem precisa de nome quando o que faz é mais do que aquilo que é?
Em todas as tardes solarengas – fossem 233 ou 267 –, Mariazinha saía à rua. Não se sabe que faria ela para sustentar os seus dias cinzentos. Talvez acumulasse alimento lá do mercado da rua da saudade, enquanto deixava a saudade por lá, para os outros a terem de si durante os dias mais escuros. Diziam que andava de olho no jardineiro, e que por não saber como o chamar, vivia sem confessar o seu amor. Quem sabe, um dia, numa tarde solarenga, como de costume, ela saísse à rua, inventasse um nome para lho dar, e assim se declarasse. Não estranharia se passasse a sair à rua nos restantes dias, ou então, talvez o jardineiro se fechasse com ela nos dias cinzentos, levando consigo um molho de flores do campo para ensolarar o seu dia. É provável.
A aldeia era feita de probabilidades estranhas e pouco provável seria não estranhá-la. Mas quem disse que o estranho não era nosso, enganou-se. Porque esta aldeia era de todos e éramos nós que lá vivíamos. Éramos o reflexo daquela loucura e aquela loucura a nós pertencia. Somos nós tanta coisa e tanto que desconhecemos. Quem me diz que o meu nome não é… espera! Não é nem Antúrio nem Narciso. Qual será então?
E que bela história, bonito conto como se a narrativa dançasse ao som da música do grande Manel. Como se o texto e a melodia dessem as mãos e me embalassem por dentro. Adorei!!! És grande Rafa 💛
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