domingo, 7 de agosto de 2016

A caixa de música que queria deixar de ser uma caixa de música

Era uma vez uma caixa de música. Perdida no meio de tantos outros objetos, memórias de tempos passados, poeira acumulada de geração em geração, que o bisavô não limpou, o avô não limpou, nem o filho, nem o neto. A necessidade de ser tocada por alguém era tanta, que quase tocava sem se rodar a sua pequena manivela, já frágil com o passar dos anos. Era bonita por fora, apesar de parecer quase inutilizável. Era bonita porque lembrava um passado distante que ainda assim se podia tocar com as pontas dos dedos, retirando-lhe a camada de pó que pousava sobre ela. 

Foi encontrada por aquele neto que há muito sentia a necessidade da descoberta, do desconhecido e se mantinha isolado do mundo. Procurando entre os armários, no meio de todas aquelas velharias, trapos que já nada diziam a ninguém, descobriu a caixa de música. E deu-lhe valor! Ela, que há tanto tempo era obrigada a estar parada, encontrava-se em estado de apatia, sem conseguir soltar o seu som. Mas ao ser tocada pelo rapazinho, foi como algo mágico envolvesse todo aquele momento. A caixa de música vivia outra vez.

O rapaz admirou-a, de tão bela que a achou, que a sentiu. Livrando-se da poeira, ia delineando um sorriso travesso que transmitia a ânsia de a ouvir. Abriu-a. Rodou a pequena manivela já enferrujada pelo tempo e a caixa de música tocou. Abriu o seu coração para o rapazinho, como talvez não abrisse para outra pessoa qualquer, mas disso ninguém pode ter a certeza. E como foi bom o que sucedeu de seguida... 

A música parecia rodear o espaço e preencher um tempo que já não fazia sentido ser o presente, nem o passado, e talvez nem o futuro. Era um tempo inexistente, criado para o rapazinho e a caixa de música. Existente apenas entre os dois. Sentimentos foram criados, emoções foram sentidas pela primeira vez e o afeto cresceu. Dependiam um do outro, sem deixarem de ser independentes. 

Era ainda mais bela a caixa de música, depois de se fazer ouvir, tão simples e natural. Ainda assim, o rapaz não a conseguia conhecer por completo. Admirava a sua música, sentia-a, mas não compreendia aquelas notas musicais que ouvia pela primeira vez, pela segunda, pela terceira. E mesmo não compreendendo, não deixava de a gostar, mostrando curiosidade por saber mais e mais sobre aquele som tão peculiar. Até se cansar...

Mais tarde descobriu-se algo que ainda hoje não se encaixa na perfeição. A caixa de música era mais do aquilo que aparentava. Era alguém. Alguém que querendo fugir da realidade, do que não conseguia controlar, daquilo que lhe fugia entre os dedos, quis ser algo mais. Quis permanecer intacta pelo tempo, memória que se pudesse tocar e guardar para sempre entre as mãos. Sentiu a falta de fazer falta, e quando isso aconteceu, todo o seu corpo se transformou. Era um novo ser...

No entanto, apesar de haver coisas que se passam de geração em geração, tornando-se objeto de recordações de outros tempos, que se deve manter para sempre, ainda assim, deixam de ser necessárias, perdendo, então, o seu valor. O rapazinho cansou-se daquele som repetido vezes sem conta como loucura interminável, e então... nunca mais rodou a pequena manivela que já havia perdido a ferrugem. 

A caixa de música deixou de querer ser uma caixa de música...

terça-feira, 29 de março de 2016

Perco-te

Para a Minha Raquel (24 de julho de 2014).

Descobri a necessidade que tenho de ter quem gosto perto de mim. Quando gosto, preciso. Preciso tanto! Preciso de uma forma que me faz doer qualquer parte de mim que nem se quer existe. Eu não me ligo às pessoas, ligo-me a algumas pessoas, e quando isso acontece, algo se transforma. Eu ganho, mas perco ao mesmo tempo. Ganho por todos os momentos, por todos os sorrisos, por todos os abraços, palavras, conforto. Mas perco. Perco por todos os momentos que poderíamos passar juntos e não passaremos, por todos os sorrisos que não iremos partilhar, pelos abraços que irei precisar (e tu também!) e não estarão lá, pela falta de palavras no preciso momento em que olho para o lado e tu não estás. Hoje sinto-me assim: a precisar de ti. Mas onde estás tu quando olho para o lado, no local onde deverias estar, e não te encontro?


segunda-feira, 28 de março de 2016

O Beijo

Num lugar distante em que já não nos encontramos, beijo-te pela primeira vez. Não sabia beijar-te porque nem se quer te sabia a ti. Mas sabia bem beijar-te mesmo assim. Perdi tantas vezes os meus sentidos, sentindo tudo o dobro do que seria natural sentir. Não foi fácil carregar tamanha emoção dentro de mim, tornando-me eu feita de paixão. E como eu apenas sou assim, continuei a ser eu ao expoente máximo que me era possível, já parecendo quase uma impossibilidade. Perdi a razão dentro de mim, corri atrás dela de encontro a ti, e perdi-me na tua razão, não encontrando paixão por que valesse a pena lutar. Somos somente dois seres em contramão. E se queria que te perdesses e não te desviasses de mim, continuasse eu a sonhar, como sempre fiz. Porque um beijo nosso tornou-se único e efémero. Debatendo-me contra a tua fugacidade, vou de encontro à minha vontade, mas deixo de ser feliz. Até um beijo tem de ser recíproco. Faltou-te a saudade. Já a mim, guardo-a no meu peito como uma lembrança do que não quero no futuro, porque o que quero é que as nossas vontades sejam iguais e persistam no tempo, como sinónimo de que não é preciso mais.

Nunca foi. 

Uma das 12 gravuras japonesas da Uta Makura (1788)do artista Utamaro Kitagawa, que concentrou a sua obra
particularmente em cenas de amor e sexo, com uma intensidade praticamente nunca atingida por outro artista.

sexta-feira, 4 de março de 2016

(sozinha) Não posso dizer adeus

No meio de uma agitação caótica de sentimentos, permanecerá para sempre a saudade. Não havendo formas de terminar com ela. Como se termina com um sentimento assim? Que guarda aquilo que fez bem ao coração. Acredito tanto nisso, mas (já) nem sei o que senti. O tanto (tudo) que deixei de saber a certa altura, sem compreender como as coisas se vêm de diferentes formas... Como se pode ver diferente do que eu vejo? Mas os sentimentos foram sentidos (por mim), viveram cá dentro. Vivem dentro de mim tão intensamente que ganham forma de pessoas no meu peito. 

Têm braços, mãos, dedos, unhas. Têm pernas, pés. Têm dentes. 

Querem agarrar tudo o que aparece de bom, mas abraçam com força o passado, prendem com as mãos pedaços do meu coração, fazem força com os dedos para os manter em mim. E já pouco vai sobrevivendo, porque a força é tanta, a vontade é tanta! Arranham com as unhas para cansar o que tenho cá dentro. Pontapeiam violentamente o inexistente, com a intenção de encontrarem o que procuram. Pisam, desfazem o que já não há, o que já não deveria haver. Pisam outra vez. E pisam. Prendem com os dentes como forma de mostrar quem manda. Ganham forma real e precisam de se alimentar, mas a emoção estagnou por uns tempos e já só resta a saudade envolvida em todas as emoções que fugiram dos sítios certos e refugiaram-se por lá. Essas que não se deixam levar por nenhum sentimento que tenha (agora) vontade própria, já não sendo controlado por mim.

Como se termina com essa parte de nós? Porque se tudo o que vivemos somos nós a ser, como se termina com aquilo que foi e ainda é? Deixando de sermos nós?

E sinto tudo isto calcando pedaços de pedra no chão, enquanto caminho para um lugar que já não tem aquilo que um dia teve, porque dentro de mim já não há nada que alimente aquilo que não quer transportar para fora o que já não existe, o que já não deveria existir, o que já não é, o que foi, o que queria ser, mas...

Continuo a ser eu.
Não posso dizer adeus.


domingo, 7 de fevereiro de 2016

Amores-Perfeitos

Para alguém que faz da palavra reciprocidade algo real.

Aquele jardim lembrava uma paisagem de um dos quadros de Monet. Colorido, vívido, natural, e tão real como qualquer outra realidade existente. Não havia a necessidade de se mostrar traços coerentes e fiéis à realidade. Havia, sim, a necessidade de mostrar o que era natural. E o que era natural: era o amor. 

Depois de colocar a vista em cima de uma pequena porção daquela imagem, não haveria outra visão que captasse o interesse e a vontade. Descobrindo-se que a vontade era feita de ambos os lados, de quem observava e do que era observado, tornando-se tão inevitavelmente um só. Deixam, então, de ser sujeito e objeto e passam a ser algo mais real. Passam a ser um para o outro, não somente um pelo outro, mas devolvem o que recebem em igual medida. E isso basta.

Querem ser vistos, mas também querem ver. Querem sentir. Querem ambos sentir. 

São sentimentos. São imagens. São momentos. É a preocupação. É a ternura. O carinho. São músicas espalhadas ao vento. Risos a correrem pelo ar. São sorrisos. São preocupações tornando-se menores. A calma que vem para ficar. Pequenos mas bonitos pormenores. São permanências. Somos permanentes.

E voltava a olhar para aquele jardim, que espreitava pela janela que mantinha um vidro límpido. Que jardim tão completo, de tudo aquilo que precisava para ser feliz. O ar surgia mais leve e elevava-me como em sonhos de criança, em que a necessidade da alegria não era mais do que uma vontade de continuar o percurso que já havia caminhado até ao presente. 

Transparência - sem manobras de distração, sem medos, vontades escondidas - praticamente era inexistente. Mas naquele jardim tudo era possível. Bastava reparar nos amores-perfeitos ali plantados e criados. Porque não basta plantar, é necessário fazer de tudo para os criar.

Como aprecio isso! Poderia ser um novo quadro de Monet, porque era a paisagem que se avistava: ela existia, era real. E parada no tempo ficaria para sempre guardada na saudade de um momento. No entanto, não havia necessidade. Com dedicação e carinho, toda aquela paisagem se manteria intacta. Poderia sofrer alterações, mas haveria o cuidado necessário para se ultrapassar desafios. Porque o carinho que transparecia daquele jardim era compatível de ambos os lados.

Havia uma palavra que flutuava na minha mente, mantendo-se presente. Lembro-me todos os dias e vivo dela. Nunca me esqueço: reciprocidade.