quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

O Carteiro

Todos os dias parecem os mesmos. Todos os dias, por volta da mesma hora aparece o Carteiro pelas mesmas ruas. Conhece os cantos à cidade, o rosto das pessoas. Sabe de cor as placas de trânsito e até os hábitos daquelas horas, daqueles locais. 

O Senhor Pedro está no café no centro comercial, sempre em horas aborrecidas de esquecimento daquilo que deveria estar a fazer. A Dona Helena, que chega sempre à mesma hora para o seu café e o seu pastel de nata, vem devagar, devagarinho, porque disseram que teve um AVC, a pobre da senhora. Nestas idades nunca se sabe: dá-nos uma coisinha e vamos desta para melhor. E ele, o Carteiro, tão novo e já com tamanhos pensamentos. 

Faz entregas nos mesmos estabelecimentos, ora todos os dias, ora dia-sim dia-não. A Dona Paula, já sabe ele que tem uma filha com uma idade próxima à dele. É sobrinha do Senhor Carlos, que já lhe queria arranjar namorico. Ele tem cara de quem precisa de arranjinhos? Deve ser por ser calado, aparentemente, que o moço do Carteiro fala que se farta se lhe puxarem pelo cordelinho. 

Recebe sempre perguntas que parecem para uma investigação de homicídio de tantas que são. Onde vive, que idade tem, se tem namorada. Mas ele até nem se importa, que a conversa até puxa pelo tempo despercebidamente, como quem não quer a coisa, e com tal já é hora do almoço e ele vai comer, que costuma estar com uma larica! 

A mulher do Senhor Carlos – acha ele que é Dona Carla – é quem faz as perguntas mais aleatórias. Não que essas perguntas nunca tivessem sido feitas por ninguém, mas assim do nada, parece-lhe sempre estranho, ó diria ele suspeito. Mas gosta dela. Gosta de todos, são simpáticas aquelas caras, já se habituou a elas e já as habituou a ele. Pelo menos é o que acha. A converseta fica sempre em dia, blá blá blá que já se faz tarde e é preciso ir fazer a entrega seguinte.

O Carteiro vai de prédio em prédio, e de casa em casa quando tem que ser também. Já faz rotinas na sua própria rotina. É um costume dele estar feliz. Mas só por ser costume não quer dizer que seja bom, porque deveria ser o que tem que ser. E se o que tiver que ser for não ser feliz? Ele próprio não sabe de si, porque sabe tanto dos outros. Enuvia-se a sua mente sobre se lhe caberá a ele definir a sua própria felicidade. Só que ele não aprendeu sobre isso, não lhe deram tempo e ele sempre foi vagaroso em descobrir o que não é sobre o outro. É difícil ser pessoa, vai murmurando entre a primeira e a última entrega da manhã. De tarde não é o mesmo, o horário de trabalho já está completo. Pensará ele que somos aquilo que fazemos? Equivocado está o pobre do rapaz com confusas ideias sobre si próprio. Ainda por cima só sabe ser carteiro: é o que faz.


quarta-feira, 14 de junho de 2017

Na chuva não se caminha sozinho

Para dois amigos especiais que tanto adoro: a Ana e o Jorge.

Há vários momentos na nossa vida em que não sabemos o que é o Amor. Não é que a minha vida tenha sido tão longa assim para ter tido tantos momentos desses. Por enquanto...

Não sabia o que era o Amor quando nasci. Que sabia eu quando nasci? Não sabia o que era o Amor quando via as pessoas à minha volta apaixonarem-se. Não sabia o que era o Amor quando a pessoa que eu gostava deixou de sentir o mesmo que eu, ou talvez nunca tenha sentido. Aliás, acho que sei menos o que é o Amor agora do que quando nasci. 

Talvez tenha desaprendido o Amor. Pode-se desaprender o Amor? Talvez tenha criado expetativas sobre este sentimento que tanto se lê nos livros desde há séculos atrás. Parece verdade que ele exista. Mas como saberei com toda a certeza se nunca o senti? 

Não sei se poderei acreditar nas palavras marcadas em folhas de papel, em livros que encontramos por aí nas estantes organizadas de uma biblioteca, de um alfarrabista que usa uns óculos na ponta do nariz e tem uns meigos cabelos brancos, ou de uma livraria moderna com promoções todas as semanas.

Não sei se poderei acreditar nas palavras dos outros. Os outros mentem de instante a instante sem nem nos apercebermos, sem nem se aperceberem. Saberão eles o que é o Amor?

Soube o que era o Amor num dia como outro qualquer. Sim, era um dia de chuva como outro qualquer. Chuva precipitada, impulsiva, que atropelava o ar que passava, o vento que corria, as pessoas que pareciam escapar-se dela. E eu, à janela daquela casa que era minha – pelo menos naquele momento –, vi o Amor.

Não era ninguém apenas, mas eram apenas duas pessoas. Protegiam-se uma à outra daquela chuva, naquele preciso lugar, como se ela pudesse magoar. Protegiam-se inevitavelmente sem haver outra escolha, quando as escolhas são sempre tantas. Porque o que sentiam obrigava a isso. Porque se amavam? Sim, apenas porque se amavam.

Os pés encontravam-se numa sincronia eletrizante, sem que fosse possível quaisquer olhos o repararem. Mas eu via. Os braços iam lado a lado, de raspão, sem se abandonarem; e as mãos, mesmo que longe, misturavam-se uma na outra numa dimensão alternativa qualquer, a todos os instantes. 

Não estavam realmente lá, e por isso mesmo soube que era Amor. Porque vendo dia a dia aquelas duas pessoas aparentemente tão vulgares, imaginei-as por debaixo daquela chuva quando nem se quer estavam ali. Qualquer que fosse o livro, não li aquele Amor. Vi-o com os meus olhos e senti-o com o meu coração. Acreditei nele. Se ele existe, existe o Amor.

Se o Amor existe, então posso ser feliz.





segunda-feira, 17 de abril de 2017

Um abraço que fala

Para o Meu Melhor Amigo, ontem, hoje e amanhã.

Por vezes, queremos ter algo para procurar, algo para descobrir e possuir. No entanto, o melhor de tudo é quando esse algo nos encontra, nos descobre e nos possui. Sem darmos conta de como isso acontece continuamos à procura do nada que precisamos, por já termos tudo.

É como dizem as pessoas: nunca estamos satisfeitos com o que temos. Mentira. Podemos é nunca nos aperceber do quão satisfeitos estamos, ou isso acontecer tarde demais. Mas quando acontece... Quando acontece, há algo que muda: um sorriso que teima em aparecer no nosso rosto sem nem conseguirmos escondê-lo por um segundo que seja; um brilho nos olhos que nos faz parecer frágeis, no entanto, sendo o mais feliz que poderíamos ser.

É assim. Não se pode desenrolar este sentimento para mostrá-lo aos outros, por estar tão bem protegido, por uma magia que permanecerá para sempre secreta.

Se ainda não sabes do que estou a falar, é porque não fazes parte deste pequeno leque de pessoas que têm a maior sorte do mundo. Se ainda não sabes do que estou a falar, eu posso dizer-te: chama-se Amizade. Aquela coisa que toda a gente fala da boca para fora sem nem mesmo saber ao certo o que é. Por parecer tão simples, mas no fundo, ser tão complexa. Esta, que toda a gente conhece, mas talvez não desta maneira.

Dizem que é o mais bonito dos amores, e teimo em aceitar esta afirmação. Porque, se existe algo que me faz sentir tão eu e tão nós, esse algo... és tu.

Não quebremos isto nunca, porque fazê-lo era limitar o sentimento e força-lo a não crescer, quando eu sei perfeitamente que não é isso que é suposto acontecer. Porque, para ti eu tenho toda a força do mundo, pois a partilhas comigo sem nada temer. Porque connosco não existe um tu e eu, mas somente um nós.

Falar assim parece fácil, mas sermos nós também requer trabalho. Por isso, vamos lentamente esforçar-nos em conjunto, para nunca irmos contra o que eu tanto acredito. Nós duraremos para sempre, e o nosso sempre é o mais longo que possa existir.

Por fim, sinto-me novamente calma... porque, 


vieste até mim com um abraço, como quem diz: gosto imenso de ti!