Chegas-te
bem perto de mim e vejo-te às cores. Manchas de tintas que cobrem o teu corpo –
a tua pele branca e suave que sempre me fazia render ao teu mínimo toque. Sabes
que mais? És um Camaleão. Escondes-te quando o desejas, apareces quando te
convém. E eu, eu deixo-te seres um Camaleão. Deixo esconderes-te quando o
desejas e aparecer quando te convém.
Já dizia alguém, não me ocorre quem
– talvez não seja apenas uma pessoa a dizer o mesmo –, que não devemos deixar
os homens fazerem de nós o que quiserem. Qual novelo de lã emaranhada por
voltas e voltas confusas de pensamentos e dúvidas. Sabes que mais? Esse alguém,
esses alguém, tinha razão, tinham razão. É o que me revolta. Sempre o soube,
sabes?
Mas tu, sempre com as tuas manias
que me faziam vacilar. Deixa lá o novelo de lã emaranhado à solta, e vamos
enrolar-nos no sofá. Sabe tão bem quando me envolves com os teus braços
compridos e com as tuas mãos longas e finas. Quase como num sonho a baloiçar no
fio do estendal onde está estendida a tua roupa interior.
Momentos. Há sempre desses momentos.
No entanto, tu és sempre Camaleão e eu sou sempre enganada pelo teu matizado de
cores e luz e brilho. Sabes que mais? Gosto de Camaleões. Eu, parva que sou,
gosto de Camaleões! E o que mais me irrita é saber que não o deveria fazer,
como se me fosse enfiar numa teia de aranha, sabendo perfeitamente que no fim
iria ser devorada como pequeno ser que sou. E tu, sempre tão grande!
Sempre te achei grande demais para
mim. Não em altura. Grande em ser. Porque apesar de seres matreiro como uma
raposa e te misturares na paisagem como um Camaleão, és quase perfeito. E esse perfeito é o mais perfeito que poderia ser.
Só falta o quase e esse, bem, esse
parece nunca mais querer crescer.
Gosto de pensar nos bons momentos
que passámos. Aqueles em que te mantinhas perfeito, sem o quase. Como quando me beijavas o tornozelo e sorrias com ar de
menino maroto e pedias que te beijasse o pescoço. O carinho com que me tocavas
no rosto como se pincelasses uma tela em branco, vazia, mas pronta para ser
preenchida de carícias e beijos enternecedores. Ou até mesmo quando te via de
calções e em tronco nu, de costas para mim, a apanhar a camisola branca que
deixavas a secar no meu estendal, no talvez nosso estendal.
Depois voltavas a ser o quase. E isso entristecia-me como um dia
de chuva. E depois eu duvidava da nossa felicidade, daquilo que tu me poderias
dar. Daquilo que eu poderia continuar a dar.
Bem,
pensei demais. Mas hoje, hoje não penso por não ter nada bom em que pensar.
Hoje, hoje choro o passado que queria voltar a possuir. O teu quase perfeito ser, que afinal era tudo. E agora, agora não é nada, porque
agora, agora escondeste-te de vez de mim, para não mais voltar. Sem sequer um
adeus, escondeste-te com medo de eu te querer possuir e roubar o teu quase ser. Querer-te perfeito. Agora só
te quero e não te tenho. Camaleão.


