terça-feira, 29 de março de 2016

Perco-te

Para a Minha Raquel (24 de julho de 2014).

Descobri a necessidade que tenho de ter quem gosto perto de mim. Quando gosto, preciso. Preciso tanto! Preciso de uma forma que me faz doer qualquer parte de mim que nem se quer existe. Eu não me ligo às pessoas, ligo-me a algumas pessoas, e quando isso acontece, algo se transforma. Eu ganho, mas perco ao mesmo tempo. Ganho por todos os momentos, por todos os sorrisos, por todos os abraços, palavras, conforto. Mas perco. Perco por todos os momentos que poderíamos passar juntos e não passaremos, por todos os sorrisos que não iremos partilhar, pelos abraços que irei precisar (e tu também!) e não estarão lá, pela falta de palavras no preciso momento em que olho para o lado e tu não estás. Hoje sinto-me assim: a precisar de ti. Mas onde estás tu quando olho para o lado, no local onde deverias estar, e não te encontro?


segunda-feira, 28 de março de 2016

O Beijo

Num lugar distante em que já não nos encontramos, beijo-te pela primeira vez. Não sabia beijar-te porque nem se quer te sabia a ti. Mas sabia bem beijar-te mesmo assim. Perdi tantas vezes os meus sentidos, sentindo tudo o dobro do que seria natural sentir. Não foi fácil carregar tamanha emoção dentro de mim, tornando-me eu feita de paixão. E como eu apenas sou assim, continuei a ser eu ao expoente máximo que me era possível, já parecendo quase uma impossibilidade. Perdi a razão dentro de mim, corri atrás dela de encontro a ti, e perdi-me na tua razão, não encontrando paixão por que valesse a pena lutar. Somos somente dois seres em contramão. E se queria que te perdesses e não te desviasses de mim, continuasse eu a sonhar, como sempre fiz. Porque um beijo nosso tornou-se único e efémero. Debatendo-me contra a tua fugacidade, vou de encontro à minha vontade, mas deixo de ser feliz. Até um beijo tem de ser recíproco. Faltou-te a saudade. Já a mim, guardo-a no meu peito como uma lembrança do que não quero no futuro, porque o que quero é que as nossas vontades sejam iguais e persistam no tempo, como sinónimo de que não é preciso mais.

Nunca foi. 

Uma das 12 gravuras japonesas da Uta Makura (1788)do artista Utamaro Kitagawa, que concentrou a sua obra
particularmente em cenas de amor e sexo, com uma intensidade praticamente nunca atingida por outro artista.

sexta-feira, 4 de março de 2016

(sozinha) Não posso dizer adeus

No meio de uma agitação caótica de sentimentos, permanecerá para sempre a saudade. Não havendo formas de terminar com ela. Como se termina com um sentimento assim? Que guarda aquilo que fez bem ao coração. Acredito tanto nisso, mas (já) nem sei o que senti. O tanto (tudo) que deixei de saber a certa altura, sem compreender como as coisas se vêm de diferentes formas... Como se pode ver diferente do que eu vejo? Mas os sentimentos foram sentidos (por mim), viveram cá dentro. Vivem dentro de mim tão intensamente que ganham forma de pessoas no meu peito. 

Têm braços, mãos, dedos, unhas. Têm pernas, pés. Têm dentes. 

Querem agarrar tudo o que aparece de bom, mas abraçam com força o passado, prendem com as mãos pedaços do meu coração, fazem força com os dedos para os manter em mim. E já pouco vai sobrevivendo, porque a força é tanta, a vontade é tanta! Arranham com as unhas para cansar o que tenho cá dentro. Pontapeiam violentamente o inexistente, com a intenção de encontrarem o que procuram. Pisam, desfazem o que já não há, o que já não deveria haver. Pisam outra vez. E pisam. Prendem com os dentes como forma de mostrar quem manda. Ganham forma real e precisam de se alimentar, mas a emoção estagnou por uns tempos e já só resta a saudade envolvida em todas as emoções que fugiram dos sítios certos e refugiaram-se por lá. Essas que não se deixam levar por nenhum sentimento que tenha (agora) vontade própria, já não sendo controlado por mim.

Como se termina com essa parte de nós? Porque se tudo o que vivemos somos nós a ser, como se termina com aquilo que foi e ainda é? Deixando de sermos nós?

E sinto tudo isto calcando pedaços de pedra no chão, enquanto caminho para um lugar que já não tem aquilo que um dia teve, porque dentro de mim já não há nada que alimente aquilo que não quer transportar para fora o que já não existe, o que já não deveria existir, o que já não é, o que foi, o que queria ser, mas...

Continuo a ser eu.
Não posso dizer adeus.