sábado, 21 de março de 2015

"Efeitos secundários da poesia"

Existiam dois mundos iguais. Iguais na sua existência, mas com uma essência completamente diferente. Num deles tudo fazia sentido - tudo podia ser sentido -, tudo era correspondido na forma exata para dar certo. Tudo crescia nos espaços certos, à hora certa, não havendo espaço para dúvidas. Sem medos, sem indecisões, sem orgulho nem receio. Naturalmente. Há coisas que nasceram para ser. E são. 

No outro, a loucura andava pelas ruas descalça, aos saltos. A esperança balanceava entre as árvores que cresciam ao contrário. O sol nascia de noite e a lua pairava no céu durante as tardes de verão. A loucura não tinha casa, andava perdida à procura de quem a abrigasse, e por isso, abrigava-se em qualquer local, despropositadamente, descontroladamente. A esperança não sabia o seu lugar, e mantinha-se ao lado de quem mais a ansiava mas não a podia ter. Enganando-as, sufocando-as, sem razão aparente. O sono era descontrolado pelo nascer do sol no tempo errado. Já ninguém andava de dia, e já ninguém se deitava à noite. A noite era como um nascer do dia, ao escuro, mas com sol. Lá estavamos vivos. Era como um descontrolado e imperfeito momento quase perfeito, sem regras, com exceções. Há coisas que não nasceram para ser. Mas são.