Desde sempre vivi em contos de fadas, sendo continuamente protagonista de uma história impossível. Não sei se é de mim achar graça a impossibilidades – vendo-me capaz de as manipular, com a certeza de que não as chamaria assim se alguma vez fossem possíveis – ou se me confundo de esperanças que nem sei ser capaz de suportar. Porque sinto ser um peso carrega-las, nem que seja por ter que as deixar um dia.
Eu, que gosto de me rodear de gente, às vezes teimo em querer-me só para mim. Viveria com menos medos, menos anseios, menos expectativas, mas mais só. Às vezes teimo em querer-me só para mim, não por receio de me dar a outros, mas por receio que não se deem a mim. Sempre fui exigente com as minhas próprias histórias, mas tenho sentido coisas a fugirem-me entre os dedos. Vivo com ânsia de querer o que mais ninguém tem: não por egoísmo, nem por exclusividade, mas porque (agora) é a ti que entrego o meu querer. E a querer, seria só para mim...
Vou pensando em ti, como quem pensa no outono que está a chegar. Sou pessoa de tempos amenos, no entanto, sou de dar tudo ou de dar nada, não gostando de me ficar no limiar da minha vontade. Em contradição ao que sou, vivo primaveras e outonos contigo, porque me deixo sucumbir à razão. Talvez fosse possível termos o nosso inverno se não vivêssemos rodeados do que há. Mas eu, que nem sei a tua vontade, cumpro apenas com aquilo que vou ditando a mim mesma e vou vivendo sozinha os meus desejos. Quem sabe fosse diferente se te dissesse que de noite sonho que vivemos os dois num castelo de cristal, impossível de ser penetrado. Talvez aí me visses só a mim, e eu, com a certeza de sermos apenas um do outro, não tivesse medo de me entregar a ti.
Tenho-me sentido personagem única das minhas histórias, e não sei ao certo se é por isso que teimo em querer tornar-te personagem principal. Deixo de lado os motivos, porque não deixo de te querer seja qual for a razão. É esse castelo de cristal de que te falei, que vou construindo dia após dia, e destruindo também. Se a minha mente vagueia em pensamentos que nos constrói, encontro a razão e faço o tempo andar para trás. E em vez de o tempo estagnar, somos nós que estagnamos no tempo, impedindo-nos de crescer. Se não me sentisse culpada em sentir o que sinto, talvez a culpa deixasse de ser minha e eu pudesse ser finalmente tua. Mas toda a gente sabe que os castelos de cristal só existem nos contos de fadas. Então, deixo de poder ser tua, já tu, nunca foste meu.
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| "Milk Way Poetry", Heen Kim. |
