sexta-feira, 24 de agosto de 2018

O Senhor do prédio em frente

Sei bem como funciona a minha imaginação, principalmente em relação às pessoas. Já dizia alguém que admiro, que gostava de ver as pessoas sendo. Cá entre nós, não sei se é assim que eu sou. Não sei se gosto de ver as pessoas a ser ou se gosto de ver aquilo que quero que elas sejam. Talvez a melhor parte da imaginação seja poder idealizar alguém ou algo, ou talvez essa seja a pior parte. As expectativas são a dor que nunca consegui controlar, e suspeito que seja para sempre assim. Sou feita de expectativas e a minha imaginação remexe o meu coração de formas incontornáveis. Quero tanto controlar tudo e gosto sempre daquilo que não se pode controlar. Como as pessoas que espreitam pelas janelas do prédio em frente… 

Imagino quantas daquelas janelas ocupam uma casa e quem a ocupará. Serão famílias de três ou quatro pessoas, em que as crianças são a destabilização que alegra o lar; ou talvez uma família menos feliz, como tantas outras, em que não há espaço para serem eles próprios. Talvez seja um espaço ocupado por um casal junto há mais de trinta anos, e que nem sempre trazem consigo dias felizes, mas vão estando. Ou alguém só, que apesar de só, vive bem consigo, porque gosta de quem é. E é quando espreitam pela janela daquele prédio, que dou comigo a imaginar as suas vidas ou a idealizar essas pessoas na minha mente. Ser pessoa é demasiado para ser pensado, mas é dos poucos desafios que dou por mim a tentar resolver, como caminho para a minha vida toda. 

Gosto de pensar pessoas. Gosto de pensar em quem vejo uma só vez, mas não costumo pensar uma só vez em quem vejo de vez em quando, quem sabe de forma acidental. Porque talvez seja um acaso, mas acasos podem ser raros. Ou talvez não seja, porque nem tudo é coincidência. Gosto de acreditar que sim. Gosto de acreditar que as pessoas se cruzam por alguma razão qualquer inexplicável, que no nosso âmago faça sentido, mesmo sem sabermos que faz. Gosto daquilo que não faz sentido, mas me faz sentir. E é por isso que gosto de observar as pessoas a espreitarem pelas infinitas janelas do prédio em frente. Ou imaginar e esperar que apareçam alternadamente, janela sim, janela não, quase como num jogo propositado. 

Sabem lá elas como vagueiam na minha mente com tanta precisão e de forma tão assídua, como que a cumprir um tal horário inexistente. Não é calculado da minha parte, apenas acontece. Não tenho mão em mim mesma, mas vou gostando de ser assim. Continuo a olhar para as janelas, de manhã todas fechadas, vão abrindo uma a uma, e tento descobrir se alguma delas pertence àquele senhor que costumo encontrar casualmente na rua. Não sei precisar a quantidade de vezes que o vi, mas há pessoas que teimam em marcar-nos a alma. E eu, que às vezes dou por mim sem ela, encontro-a quando a procuro em outros. Gosta de se desocupar de mim, ou então, talvez seja por dar tanto de mim aos outros, que a faço correr em busca daquilo que me pertence. 

Se aquele senhor, em que penso agora, não espreita pela janela enquanto o tento encontrar, será que passeia pelos corredores de sua casa, entre os espaços vazios de gente, parando para cochilar depois de ler um livro antigo que deixou para trás anos afim e teve a confiança para pegar entretanto? Quem sabe esteja a escolher um dos vários vinis que foi colecionando ao longo dos anos em que vasculhava todas as lojas de discos usados, com sons de outros tempos, que não passam de moda porque nos preenchem a alma. Ou não. Talvez nem seja senhor de ter. Talvez seja senhor do que não há, e por isso mesmo seja. Talvez seja senhor do que traz dentro de si. Ou seja tudo isso. E leve consigo parte da minha alma, pois o meu coração tem palpitado no meu peito, desmedidamente, também ele som de outros tempos, com a certeza de que o amor é mistério que nem com o tempo saberei decifrar.

The Gateway To Amsterdam, Leonid Afremov.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

O nosso primeiro beijo

Podia passar um dia inteiro a falar sobre primeiras vezes. O problema das primeiras vezes é que não se repetem. E eu vivo a precisar de repetições constantes do que me sabe bem. O problema das primeiras vezes é que costumam deixar saudade. E eu, que adoro a existência deste aglomerado de sentimentos, entristeço-me com eles. É antagónico gostar do que nos faz sofrer, mas se faz sofrer porque fez bem um dia, não será de questionar esta antítese? 

Recordo-me da primeira vez que te vi quase mesmo sem te ver. Acontece-me tantas vezes, que perdi a conta: olhar as pessoas sem as ver. A minha melhor amiga ri-se de mim e auxilia todo este processo em que eu reparo numa pessoa, fico com vontade de a ver melhor – e por isso mesmo não a vejo de todo – e me diz o que acha. Não o que ela acha, mas sim o que acha daquilo que eu poderei achar. Parece parvo, mas tem tanto de íntimo entre nós, que faz-me rir de todas as vezes que acontece. 

Recordo-me da primeira vez que te falei. Nunca no meu estado normal poderia fazê-lo, porque fujo do que me intimida. E por vezes é o que nos intimida que nos faz feliz. Lembro tão bem aquele momento antes de acontecer, em que questionei todas as pessoas que me rodeavam sobre o que achavam da frase que eu tinha preparado para te abordar. Mas nada posso dizer sobre as minhas expetativas, porque não me recordo delas, apenas da ânsia de te falar. Não sei o quanto pensei naquelas palavras, talvez tenham surgido subitamente, como sinal do destino, para que fizesses parte da minha vida. O problema das primeiras vezes é que sendo sucedidas por outras, começam a desvanecer-se na nossa mente, deixando um vazio surpreendentemente amargo. Queria voltar àquele dia para gravar na minha mente minuciosamente todos os pormenores. Não sei se foi nesse momento que reparei no tom da tua voz – suave, doce, a transbordar de carinho –, se agora é que o recordo assim. Até nos momentos menos bons, em que te irritavas com as minhas exigências, a tua voz era bonita de se ouvir. Para mim era bonita de se ouvir, e estranho que não fosse para os outros, porque para mim eras como uma verdade absoluta e só existia a forma como eu te via. 

Recordo-me da primeira vez em que quase tive a certeza de que estavas curioso em relação a mim. Dei por mim a duvidar daquele momento de tão maravilhoso que o senti. Questionei mil e uma vezes as tuas intenções, porque não acreditei que existiam impossibilidades que fossem possíveis. Como quando me disseste pela primeira vez que estava bonita, enquanto subíamos juntos no mesmo espaço pequeno que era aquele elevador, um caminho quase longínquo demais para o aguentar ao teu lado, sem fraquejar. Ou quando te camuflaste no meu quarto, deitaste-te na minha cama por fazer e aumentaste o som da música que tinha colocado para esperar por ti. E quando caminhaste comigo pela primeira vez naquela noite escura? Não queria que te fosses embora, com receio de que tudo tivesse sido um sonho. E eu que gosto de sonhar temi aquela realidade. Porque tu eras assim para mim: como um sonho bom demais para ser real. 

Recordo-me da primeira flor que me ofereceste. Aliás, recordo todas as flores que me ofereceste. Mas acho que talvez tenha sido nessa primeira vez que teimei para mim mesma que eras de outro mundo, de tão genuinamente irreal te senti. E eu, sentindo em êxtase como se a vida fosse uma hipérbole, controlei os meus impulsos e estremeci de felicidade, gritando para dentro de mim a alegria que incessantemente me davas. Retiraste a flor de trás das costas, segurei-a com força nas minhas mãos, como todas as primeiras vezes que me deste no resto desse dia. 

Recordo-me do tanto que te queria beijar, mas eu nunca fui corajosa em dar primeiros passos. O problema das primeiras vezes é que me dão medo. De tanto te querer beijar, não soube ao certo o que senti quando te despediste de mim na primeira noite em que nos encontrámos. Prendeste o meu rosto nas tuas mãos, tocaste-o com os teus lábios e deixaste-os ficar por instantes. E a mim deixaste-me inquieta a pensar que teríamos o nosso primeiro beijo, mas não. E não seria melhor se o tivéssemos tido naquele momento. Porque o nosso primeiro beijo, depois do nosso primeiro abraço – em que senti realmente que me queria entregar a ti –, e aquelas palavras que não esqueço, pesar-me-ão para sempre no coração. Nunca me sentirei incompleta depois disso. Porque me tiveste, e eu também te tive. 

Não sei se foste o meu primeiro amor. Não sei se se quer se ele já existiu. No entanto, deste-me tantas primeiras vezes que amei-te de todas as vezes que o fizeste. Pela ânsia, pela alegria, pelo prazer, pela dor, pela saudade. Por teres feito parte de mim no momento em que mais precisei de ti. Talvez me tenhas salvado, e nem essa certeza me deste, porque não sei como seria sem ti. Mas obrigada. Talvez não tenhas noção do quanto a minha paixão por ti afugentou o medo, que perdeu a coragem de bater à minha porta. Mas obrigada. Por todas as primeiras vezes que se ocuparam do meu corpo e da minha alma, de mim por inteiro, não deixando espaço para mais nada. A saudade pode ser adversa, mas ainda bem que faz parte de mim.

잘 부탁합니다  /  Please take care of this
Pigment liner and marker on paper, 2009