Sei bem como funciona a minha imaginação, principalmente em relação às pessoas. Já dizia alguém que admiro, que gostava de ver as pessoas sendo. Cá entre nós, não sei se é assim que eu sou. Não sei se gosto de ver as pessoas a ser ou se gosto de ver aquilo que quero que elas sejam. Talvez a melhor parte da imaginação seja poder idealizar alguém ou algo, ou talvez essa seja a pior parte. As expectativas são a dor que nunca consegui controlar, e suspeito que seja para sempre assim. Sou feita de expectativas e a minha imaginação remexe o meu coração de formas incontornáveis. Quero tanto controlar tudo e gosto sempre daquilo que não se pode controlar. Como as pessoas que espreitam pelas janelas do prédio em frente…
Imagino quantas daquelas janelas ocupam uma casa e quem a ocupará. Serão famílias de três ou quatro pessoas, em que as crianças são a destabilização que alegra o lar; ou talvez uma família menos feliz, como tantas outras, em que não há espaço para serem eles próprios. Talvez seja um espaço ocupado por um casal junto há mais de trinta anos, e que nem sempre trazem consigo dias felizes, mas vão estando. Ou alguém só, que apesar de só, vive bem consigo, porque gosta de quem é. E é quando espreitam pela janela daquele prédio, que dou comigo a imaginar as suas vidas ou a idealizar essas pessoas na minha mente. Ser pessoa é demasiado para ser pensado, mas é dos poucos desafios que dou por mim a tentar resolver, como caminho para a minha vida toda.
Gosto de pensar pessoas. Gosto de pensar em quem vejo uma só vez, mas não costumo pensar uma só vez em quem vejo de vez em quando, quem sabe de forma acidental. Porque talvez seja um acaso, mas acasos podem ser raros. Ou talvez não seja, porque nem tudo é coincidência. Gosto de acreditar que sim. Gosto de acreditar que as pessoas se cruzam por alguma razão qualquer inexplicável, que no nosso âmago faça sentido, mesmo sem sabermos que faz. Gosto daquilo que não faz sentido, mas me faz sentir. E é por isso que gosto de observar as pessoas a espreitarem pelas infinitas janelas do prédio em frente. Ou imaginar e esperar que apareçam alternadamente, janela sim, janela não, quase como num jogo propositado.
Sabem lá elas como vagueiam na minha mente com tanta precisão e de forma tão assídua, como que a cumprir um tal horário inexistente. Não é calculado da minha parte, apenas acontece. Não tenho mão em mim mesma, mas vou gostando de ser assim. Continuo a olhar para as janelas, de manhã todas fechadas, vão abrindo uma a uma, e tento descobrir se alguma delas pertence àquele senhor que costumo encontrar casualmente na rua. Não sei precisar a quantidade de vezes que o vi, mas há pessoas que teimam em marcar-nos a alma. E eu, que às vezes dou por mim sem ela, encontro-a quando a procuro em outros. Gosta de se desocupar de mim, ou então, talvez seja por dar tanto de mim aos outros, que a faço correr em busca daquilo que me pertence.
Se aquele senhor, em que penso agora, não espreita pela janela enquanto o tento encontrar, será que passeia pelos corredores de sua casa, entre os espaços vazios de gente, parando para cochilar depois de ler um livro antigo que deixou para trás anos afim e teve a confiança para pegar entretanto? Quem sabe esteja a escolher um dos vários vinis que foi colecionando ao longo dos anos em que vasculhava todas as lojas de discos usados, com sons de outros tempos, que não passam de moda porque nos preenchem a alma. Ou não. Talvez nem seja senhor de ter. Talvez seja senhor do que não há, e por isso mesmo seja. Talvez seja senhor do que traz dentro de si. Ou seja tudo isso. E leve consigo parte da minha alma, pois o meu coração tem palpitado no meu peito, desmedidamente, também ele som de outros tempos, com a certeza de que o amor é mistério que nem com o tempo saberei decifrar.
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| The Gateway To Amsterdam, Leonid Afremov. |

