Num lugar distante em que já não nos encontramos, beijo-te pela primeira vez. Não sabia beijar-te porque nem se quer te sabia a ti. Mas sabia bem beijar-te mesmo assim. Perdi tantas vezes os meus sentidos, sentindo tudo o dobro do que seria natural sentir. Não foi fácil carregar tamanha emoção dentro de mim, tornando-me eu feita de paixão. E como eu apenas sou assim, continuei a ser eu ao expoente máximo que me era possível, já parecendo quase uma impossibilidade. Perdi a razão dentro de mim, corri atrás dela de encontro a ti, e perdi-me na tua razão, não encontrando paixão por que valesse a pena lutar. Somos somente dois seres em contramão. E se queria que te perdesses e não te desviasses de mim, continuasse eu a sonhar, como sempre fiz. Porque um beijo nosso tornou-se único e efémero. Debatendo-me contra a tua fugacidade, vou de encontro à minha vontade, mas deixo de ser feliz. Até um beijo tem de ser recíproco. Faltou-te a saudade. Já a mim, guardo-a no meu peito como uma lembrança do que não quero no futuro, porque o que quero é que as nossas vontades sejam iguais e persistam no tempo, como sinónimo de que não é preciso mais.
Nunca foi.
Nunca foi.
Uma das 12 gravuras japonesas da Uta Makura (1788), do artista Utamaro Kitagawa, que concentrou a sua obra
particularmente em cenas de amor e sexo, com uma intensidade praticamente nunca atingida por outro artista. |
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