Todos os dias parecem os mesmos. Todos os dias, por volta da mesma hora aparece o Carteiro pelas mesmas ruas. Conhece os cantos à cidade, o rosto das pessoas. Sabe de cor as placas de trânsito e até os hábitos daquelas horas, daqueles locais.
O Senhor Pedro está no café no centro comercial, sempre em horas aborrecidas de esquecimento daquilo que deveria estar a fazer. A Dona Helena, que chega sempre à mesma hora para o seu café e o seu pastel de nata, vem devagar, devagarinho, porque disseram que teve um AVC, a pobre da senhora. Nestas idades nunca se sabe: dá-nos uma coisinha e vamos desta para melhor. E ele, o Carteiro, tão novo e já com tamanhos pensamentos.
Faz entregas nos mesmos estabelecimentos, ora todos os dias, ora dia-sim dia-não. A Dona Paula, já sabe ele que tem uma filha com uma idade próxima à dele. É sobrinha do Senhor Carlos, que já lhe queria arranjar namorico. Ele tem cara de quem precisa de arranjinhos? Deve ser por ser calado, aparentemente, que o moço do Carteiro fala que se farta se lhe puxarem pelo cordelinho.
Recebe sempre perguntas que parecem para uma investigação de homicídio de tantas que são. Onde vive, que idade tem, se tem namorada. Mas ele até nem se importa, que a conversa até puxa pelo tempo despercebidamente, como quem não quer a coisa, e com tal já é hora do almoço e ele vai comer, que costuma estar com uma larica!
A mulher do Senhor Carlos – acha ele que é Dona Carla – é quem faz as perguntas mais aleatórias. Não que essas perguntas nunca tivessem sido feitas por ninguém, mas assim do nada, parece-lhe sempre estranho, ó diria ele suspeito. Mas gosta dela. Gosta de todos, são simpáticas aquelas caras, já se habituou a elas e já as habituou a ele. Pelo menos é o que acha. A converseta fica sempre em dia, blá blá blá que já se faz tarde e é preciso ir fazer a entrega seguinte.
O Carteiro vai de prédio em prédio, e de casa em casa quando tem que ser também. Já faz rotinas na sua própria rotina. É um costume dele estar feliz. Mas só por ser costume não quer dizer que seja bom, porque deveria ser o que tem que ser. E se o que tiver que ser for não ser feliz? Ele próprio não sabe de si, porque sabe tanto dos outros. Enuvia-se a sua mente sobre se lhe caberá a ele definir a sua própria felicidade. Só que ele não aprendeu sobre isso, não lhe deram tempo e ele sempre foi vagaroso em descobrir o que não é sobre o outro. É difícil ser pessoa, vai murmurando entre a primeira e a última entrega da manhã. De tarde não é o mesmo, o horário de trabalho já está completo. Pensará ele que somos aquilo que fazemos? Equivocado está o pobre do rapaz com confusas ideias sobre si próprio. Ainda por cima só sabe ser carteiro: é o que faz.

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