quarta-feira, 14 de junho de 2017

Na chuva não se caminha sozinho

Para dois amigos especiais que tanto adoro: a Ana e o Jorge.

Há vários momentos na nossa vida em que não sabemos o que é o Amor. Não é que a minha vida tenha sido tão longa assim para ter tido tantos momentos desses. Por enquanto...

Não sabia o que era o Amor quando nasci. Que sabia eu quando nasci? Não sabia o que era o Amor quando via as pessoas à minha volta apaixonarem-se. Não sabia o que era o Amor quando a pessoa que eu gostava deixou de sentir o mesmo que eu, ou talvez nunca tenha sentido. Aliás, acho que sei menos o que é o Amor agora do que quando nasci. 

Talvez tenha desaprendido o Amor. Pode-se desaprender o Amor? Talvez tenha criado expetativas sobre este sentimento que tanto se lê nos livros desde há séculos atrás. Parece verdade que ele exista. Mas como saberei com toda a certeza se nunca o senti? 

Não sei se poderei acreditar nas palavras marcadas em folhas de papel, em livros que encontramos por aí nas estantes organizadas de uma biblioteca, de um alfarrabista que usa uns óculos na ponta do nariz e tem uns meigos cabelos brancos, ou de uma livraria moderna com promoções todas as semanas.

Não sei se poderei acreditar nas palavras dos outros. Os outros mentem de instante a instante sem nem nos apercebermos, sem nem se aperceberem. Saberão eles o que é o Amor?

Soube o que era o Amor num dia como outro qualquer. Sim, era um dia de chuva como outro qualquer. Chuva precipitada, impulsiva, que atropelava o ar que passava, o vento que corria, as pessoas que pareciam escapar-se dela. E eu, à janela daquela casa que era minha – pelo menos naquele momento –, vi o Amor.

Não era ninguém apenas, mas eram apenas duas pessoas. Protegiam-se uma à outra daquela chuva, naquele preciso lugar, como se ela pudesse magoar. Protegiam-se inevitavelmente sem haver outra escolha, quando as escolhas são sempre tantas. Porque o que sentiam obrigava a isso. Porque se amavam? Sim, apenas porque se amavam.

Os pés encontravam-se numa sincronia eletrizante, sem que fosse possível quaisquer olhos o repararem. Mas eu via. Os braços iam lado a lado, de raspão, sem se abandonarem; e as mãos, mesmo que longe, misturavam-se uma na outra numa dimensão alternativa qualquer, a todos os instantes. 

Não estavam realmente lá, e por isso mesmo soube que era Amor. Porque vendo dia a dia aquelas duas pessoas aparentemente tão vulgares, imaginei-as por debaixo daquela chuva quando nem se quer estavam ali. Qualquer que fosse o livro, não li aquele Amor. Vi-o com os meus olhos e senti-o com o meu coração. Acreditei nele. Se ele existe, existe o Amor.

Se o Amor existe, então posso ser feliz.





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