domingo, 7 de fevereiro de 2016

Amores-Perfeitos

Para alguém que faz da palavra reciprocidade algo real.

Aquele jardim lembrava uma paisagem de um dos quadros de Monet. Colorido, vívido, natural, e tão real como qualquer outra realidade existente. Não havia a necessidade de se mostrar traços coerentes e fiéis à realidade. Havia, sim, a necessidade de mostrar o que era natural. E o que era natural: era o amor. 

Depois de colocar a vista em cima de uma pequena porção daquela imagem, não haveria outra visão que captasse o interesse e a vontade. Descobrindo-se que a vontade era feita de ambos os lados, de quem observava e do que era observado, tornando-se tão inevitavelmente um só. Deixam, então, de ser sujeito e objeto e passam a ser algo mais real. Passam a ser um para o outro, não somente um pelo outro, mas devolvem o que recebem em igual medida. E isso basta.

Querem ser vistos, mas também querem ver. Querem sentir. Querem ambos sentir. 

São sentimentos. São imagens. São momentos. É a preocupação. É a ternura. O carinho. São músicas espalhadas ao vento. Risos a correrem pelo ar. São sorrisos. São preocupações tornando-se menores. A calma que vem para ficar. Pequenos mas bonitos pormenores. São permanências. Somos permanentes.

E voltava a olhar para aquele jardim, que espreitava pela janela que mantinha um vidro límpido. Que jardim tão completo, de tudo aquilo que precisava para ser feliz. O ar surgia mais leve e elevava-me como em sonhos de criança, em que a necessidade da alegria não era mais do que uma vontade de continuar o percurso que já havia caminhado até ao presente. 

Transparência - sem manobras de distração, sem medos, vontades escondidas - praticamente era inexistente. Mas naquele jardim tudo era possível. Bastava reparar nos amores-perfeitos ali plantados e criados. Porque não basta plantar, é necessário fazer de tudo para os criar.

Como aprecio isso! Poderia ser um novo quadro de Monet, porque era a paisagem que se avistava: ela existia, era real. E parada no tempo ficaria para sempre guardada na saudade de um momento. No entanto, não havia necessidade. Com dedicação e carinho, toda aquela paisagem se manteria intacta. Poderia sofrer alterações, mas haveria o cuidado necessário para se ultrapassar desafios. Porque o carinho que transparecia daquele jardim era compatível de ambos os lados.

Havia uma palavra que flutuava na minha mente, mantendo-se presente. Lembro-me todos os dias e vivo dela. Nunca me esqueço: reciprocidade.


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