Ouvi-te em sussuros quando em conversas paralelas contigo mesma, queixavas-te do que te rodeava. Não conseguia entender se era dor que existia nas tuas palavras, se o anseio de uma felicidade que, por vezes, acreditavas não ser possível alcançar. Não entendia aquilo que tanto ansiavas, se ao menos existia algo que ansiasses. Muito menos sabia se era eu que não deixava te perceber ou se eras tu que mal te percebias.
Tu, de sorriso travesso e doce nos lábios, mostravas o que uma mulher podia ser e não ser. Um emaranhado de desejos concretos, abstratos, indecifráveis e ainda por descobrir. Ainda assim, trazias dentro de ti a maior paixão do mundo. Eras, sem dúvida alguma, a mulher mais apaixonada que até ao momento eu tinha visto. Apaixonada por tudo: pelo vento que tornava romântico um passeio enregelado, lançando-te os cabelos aos olhos para aquele alguém que estaria ao teu lado, com as mãos hábeis, colocar-to atrás da orelha; pelos sons, que tornavam cada momento único e sinalizavam cada toque que esse alguém te dava ou exigia que desses; pelo frio, que te fazia estremecer mas aconchegar da outra pessoa, como se fosse a coisa melhor que pudesses ter, e era; pelo calor, que fazia transpirar os vossos corpos, quando em danças coordenadas se uniam uma, duas, três vezes, e quantas fossem preciso.
Tudo era teu, ou pelo menos, desejavas que assim fosse. E quando isso não acontecia, maltratavas a vida por não te dar tudo aquilo a que tinhas direito. Um sopro ao ouvido pela manhã, cheio de ternura, que arrepiava a pele mesmo debaixo do pijama mais quente. Um envolver de braços no teu corpo, que mesmo impedindo-te de dormir, deixavam-te adormecer mais sossegada. O sentir do bater de dois corações em uníssono, sabendo que existe o amor e é possível estar com alguém que também gosta de nós.
E se o gostar chega, nem mesmo isso saberias responder a ti mesma, porque nem tu sabes até onde vão os teus sentimentos. Mas exiges uma coisa. Porque para ti só existe uma forma de amor: o recíproco. Sem isso, não tens nada. Sem isso, não há momento nenhum que te faça acreditar que é para sempre. E não acreditando nisso, não acreditas em nada, muito menos no amor.
Ainda assim, agarras-te à ideia de que tudo acontece por uma razão.
Não foi culpa tua: a lua estava distante demais... Mas um dia vai deixar de girar em torno da terra para girar em torno de ti.
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| Estes versos de Ricardo Reis mostram a sua nova atitude perante o amor, como um convite ao mesmo. Um novo conceito de amor como reciprocidade surge neste heterónimo de Fernando Pessoa. |

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