Era uma vez uma caixa de música. Perdida no meio de tantos outros objetos, memórias de tempos passados, poeira acumulada de geração em geração, que o bisavô não limpou, o avô não limpou, nem o filho, nem o neto. A necessidade de ser tocada por alguém era tanta, que quase tocava sem se rodar a sua pequena manivela, já frágil com o passar dos anos. Era bonita por fora, apesar de parecer quase inutilizável. Era bonita porque lembrava um passado distante que ainda assim se podia tocar com as pontas dos dedos, retirando-lhe a camada de pó que pousava sobre ela.
Foi encontrada por aquele neto que há muito sentia a necessidade da descoberta, do desconhecido e se mantinha isolado do mundo. Procurando entre os armários, no meio de todas aquelas velharias, trapos que já nada diziam a ninguém, descobriu a caixa de música. E deu-lhe valor! Ela, que há tanto tempo era obrigada a estar parada, encontrava-se em estado de apatia, sem conseguir soltar o seu som. Mas ao ser tocada pelo rapazinho, foi como algo mágico envolvesse todo aquele momento. A caixa de música vivia outra vez.
O rapaz admirou-a, de tão bela que a achou, que a sentiu. Livrando-se da poeira, ia delineando um sorriso travesso que transmitia a ânsia de a ouvir. Abriu-a. Rodou a pequena manivela já enferrujada pelo tempo e a caixa de música tocou. Abriu o seu coração para o rapazinho, como talvez não abrisse para outra pessoa qualquer, mas disso ninguém pode ter a certeza. E como foi bom o que sucedeu de seguida...
A música parecia rodear o espaço e preencher um tempo que já não fazia sentido ser o presente, nem o passado, e talvez nem o futuro. Era um tempo inexistente, criado para o rapazinho e a caixa de música. Existente apenas entre os dois. Sentimentos foram criados, emoções foram sentidas pela primeira vez e o afeto cresceu. Dependiam um do outro, sem deixarem de ser independentes.
Era ainda mais bela a caixa de música, depois de se fazer ouvir, tão simples e natural. Ainda assim, o rapaz não a conseguia conhecer por completo. Admirava a sua música, sentia-a, mas não compreendia aquelas notas musicais que ouvia pela primeira vez, pela segunda, pela terceira. E mesmo não compreendendo, não deixava de a gostar, mostrando curiosidade por saber mais e mais sobre aquele som tão peculiar. Até se cansar...
Mais tarde descobriu-se algo que ainda hoje não se encaixa na perfeição. A caixa de música era mais do aquilo que aparentava. Era alguém. Alguém que querendo fugir da realidade, do que não conseguia controlar, daquilo que lhe fugia entre os dedos, quis ser algo mais. Quis permanecer intacta pelo tempo, memória que se pudesse tocar e guardar para sempre entre as mãos. Sentiu a falta de fazer falta, e quando isso aconteceu, todo o seu corpo se transformou. Era um novo ser...
No entanto, apesar de haver coisas que se passam de geração em geração, tornando-se objeto de recordações de outros tempos, que se deve manter para sempre, ainda assim, deixam de ser necessárias, perdendo, então, o seu valor. O rapazinho cansou-se daquele som repetido vezes sem conta como loucura interminável, e então... nunca mais rodou a pequena manivela que já havia perdido a ferrugem.
A caixa de música deixou de querer ser uma caixa
de música...

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