sexta-feira, 25 de maio de 2018

Como uma onda

Nunca fui sozinha. Talvez por isso não o saiba ser. Apego-me a tudo o que se apega a mim. Se precisam da minha presença, sinto que preciso também. Vivo de dar e receber, reciprocidade que me constrói em torno da minha individualidade, tornando-me do mundo. Pois antes de ser do mundo, sou do mar. Mas antes de ser do mar, serei de mim? 

Por ser onda do mar, encontro-me com o infinito. Toco o sol, no horizonte, ora ao de leve quando me sinto mais calma, ora de forma rude, arrebatada pelas minhas incertezas e certezas que me constrangem. Será, talvez, culpa do mar onde habito, que me faz ir na maré, reprimindo-me ou fazendo-me livre, sem na realidade nunca o ser. No fundo, sou parte dele, e tudo o que ele é, é o que me vai fazendo ser. 

Também toco as areias, todas elas desiguais, marcadas de caminhos que revelam o destino dos amantes. Gosto de me abeirar de mansinho, tapar os seus pés e voltar para trás, em constante repetição, dia após dia. Às vezes quero ser como eles, e ter a vontade para me guiar e levar a outros cantos. Mas não é falta de vontade. Fizeram-me assim e sou presa às amarras da razão e do medo, contradizendo com o amor que tenho em viver. 

Posso ser pequena e posso ser maior do que já fui. De uma maneira ou de outra, sei-me capaz de deixar alguma marca. Alguém há de querer voltar a mim, mesmo não sabendo que sou eu. Vão querer sentir o meu toque, darem-me a conhecer a outros. Ficarei à espera, envolvida no vento ou na brisa dos dias que me escolherem. Esperar eu sei: há dor, ânsia e reconforto em saber que algo irá regressar a nós. E mesmo não sabendo, vou sempre acreditar que sim, porque vivo da esperança, sem saber se quer o seu paradeiro. Talvez o paradeiro seja eu, que como onda do mar em que nasci, fiz crescer dentro de mim a minha própria salvação. 

Se sou passado e presente, em torno de qual deles sigo em busca do futuro? Deixando-os no fundo do oceano, nunca retornando para os buscar? Existirá futuro meu que não viva do que já foi? Ou do que já fui? Mas sendo onda, volto sempre ao que me trouxe aqui. Não sei ser de outra forma, nem mesmo se deveria ser. Mas se retornam a mim e me entregam a vontade de me terem, rebentarei sobre as rochas com determinação, salpicando as gaivotas que por lá passarem, e roubarei a vontade para que seja minha. E sendo minha, não é de mais ninguém, porque a reclamei para mim. Não sendo a vontade de mais ninguém, deixas a vontade de me ter, e agora já só te quero eu.

Porte d'Aval, Falaise à sunset (Cliffs at sunset), Étretat, 1883, Claude Monet.

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