Conhecia-a numa noite singular, mas singular era ela. Não sabia dançar porque achava que não sabia dançar, mas caminhava como se dançasse. Era assim que eu a via enquanto os seus passos a aproximavam de mim. Foi naquela noite – naquela primeira noite –, que soube querer descobrir-lhe o coração, e tudo mais o que houvesse para descobrir. Os sinais que lhe percorriam o corpo, como constelações no céu escuro, pediam que os tocasse, um a um, numa eterna jornada das mais belas que pode existir. E o que a fazia ainda mais bela era a fraqueza de não saber quão bela era, quão imperfeitamente peculiar se tornava com todas as suas cicatrizes.
Para mim, ela era como uma cicatriz no meu peito – que não curava –, porque me apaixonava todos os dias por cada sinal que encontrava num sítio novo do seu corpo, de cada vez que se deixava relaxar ao lado do meu, e a podia observar calmamente enquanto dormia. E eu adormecia enquanto contava os seus sinais e decorava cada um deles, como se fosse essencial gravar essa imagem na minha mente, para a eternidade.
Enquanto dormia, sentia-a embalada nos seus sonhos mais puros. Ela não sonhava os sonhos dos outros, antes aqueles que criava para si. Os sonhos dela personificavam a sua imaginação: envolviam flores e amor, folhas de outono a cair das árvores em todas as estações do ano, mares que desaguavam em rios e passarinhos verdes a que chamava alegria. As borboletas no estômago, essas já não habitavam apenas nos seus sonhos, porque falava delas de olhos abertos e postos em mim.
Era apaixonada por tudo, por cada pequeno detalhe do mundo. Qualquer coisa a fazia feliz de um jeito que a mais ninguém fazia. Era feliz quando alguém terminava as suas frases, adivinhando-a. Ela gostava que a conhecessem, pois isso significava que ficariam com ela para sempre. Porque ela sabia dos seus defeitos, mas mesmo insegura, sabia-se pessoa de não soltar a mão de ninguém. Era apaixonada por tudo e podia ser apaixonada por todos, e eu era feliz porque toda a paixão que ela tinha para dar, dava-a a mim. Ela não pediu que eu a amasse, mas que a fizesse feliz. E eu, sem querer, amei-a de imediato, talvez antes mesmo de me aperceber.
Podia ser contraditória em todas as alturas. Dormia quieta, sem se mexer, apenas ocupando o canto dela da cama. Contudo, acordava a cantar e atrapalhava o meu sossego a qualquer instante do dia. Perguntei porque cantava todas as manhãs enquanto despertava, e respondeu-me que se cantava, provavelmente, era por estar feliz – dizendo o verbo estar com ousadia. Adorava cantar, mas era tímida e desafinada. Ainda assim, cantava para que eu a pudesse ouvir. Não escondia a sua felicidade, nem as suas fraquezas, tornando-se vulnerável e transparente. E eu gostava que ela fosse assim.
Mantinha sempre um livro na mesa-de-cabeceira, mesmo que não o estivesse a ler. Porque gostava de manter perto tudo aquilo que lhe fazia bem. Era feita de hábitos e pequenas particularidades. Vestia preto e batom castanho, mas também vestia flores e pintava os lábios de vermelho. Gostava de tanta coisa, mesmo que diferentes, mas só assim podia ser ela própria, pois tinha um mundo dentro de si. E eu gostava dela de todas as maneiras.
Não deixava que a pegasse ao colo, esperneando feita louca, dizendo que pesava demais. No fundo, era cheia de receios e complexos, mas eu sabia que estava com ela para os derrubar, por isso, esforçava-me para debater contra a sua loucura e mantinha-a nos meus braços, contra o peito, gostando de a sentir. Era quente, doce, e quando se sentia fria, sabia que ansiava pelo meu toque. Era tão minha como eu era dela, e fomos sendo um do outro enquanto nos pertencíamos.
Nunca deixei de a amar, mas a paixão dentro dela era tanta que acreditei que outros a deviam conhecer como eu conheci. Ela nunca foi minha, porque era boa demais para a guardar apenas para mim. Um dia alguém será egoísta o suficiente para a tornar para sempre sua, e será feliz com ela. Verá o seu rosto todas as manhãs, que em nenhuma ocasião escondia o seu sorriso; ouvirá as suas canções de quem canta por ser feliz; aquecerá os seus dedos durante passeios ao luar, porque gosta de sair no frio da noite como desculpa para ser tocada por quem ama; borratará todas as cores dos seus batons, que a cada dia será diferente; tirará todos os seus vestidos de flores no escuro do quarto, em que as luzes serão propositadamente apagadas; e saberá o nome de todos os livros que irão passar nas suas mãos, porque gosta de falar de si: é assim que ela é.
Quando esse dia chegar, talvez me arrependa de não ser eu, mas fico feliz por saber que alguém como ela existiu na minha vida e faz parte do mundo. Se toda a gente fosse metade do que ela é, o mundo seria como uma música que nunca cansa ouvir. E eu gosto tanto de música…
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| "don't just listen, feel it", Henn Kim. |

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