terça-feira, 28 de outubro de 2014

Camaleão

Chegas-te bem perto de mim e vejo-te às cores. Manchas de tintas que cobrem o teu corpo – a tua pele branca e suave que sempre me fazia render ao teu mínimo toque. Sabes que mais? És um Camaleão. Escondes-te quando o desejas, apareces quando te convém. E eu, eu deixo-te seres um Camaleão. Deixo esconderes-te quando o desejas e aparecer quando te convém.

Já dizia alguém, não me ocorre quem – talvez não seja apenas uma pessoa a dizer o mesmo –, que não devemos deixar os homens fazerem de nós o que quiserem. Qual novelo de lã emaranhada por voltas e voltas confusas de pensamentos e dúvidas. Sabes que mais? Esse alguém, esses alguém, tinha razão, tinham razão. É o que me revolta. Sempre o soube, sabes?

Mas tu, sempre com as tuas manias que me faziam vacilar. Deixa lá o novelo de lã emaranhado à solta, e vamos enrolar-nos no sofá. Sabe tão bem quando me envolves com os teus braços compridos e com as tuas mãos longas e finas. Quase como num sonho a baloiçar no fio do estendal onde está estendida a tua roupa interior.

Momentos. Há sempre desses momentos. No entanto, tu és sempre Camaleão e eu sou sempre enganada pelo teu matizado de cores e luz e brilho. Sabes que mais? Gosto de Camaleões. Eu, parva que sou, gosto de Camaleões! E o que mais me irrita é saber que não o deveria fazer, como se me fosse enfiar numa teia de aranha, sabendo perfeitamente que no fim iria ser devorada como pequeno ser que sou. E tu, sempre tão grande!

Sempre te achei grande demais para mim. Não em altura. Grande em ser. Porque apesar de seres matreiro como uma raposa e te misturares na paisagem como um Camaleão, és quase perfeito. E esse perfeito é o mais perfeito que poderia ser. Só falta o quase e esse, bem, esse parece nunca mais querer crescer.

Gosto de pensar nos bons momentos que passámos. Aqueles em que te mantinhas perfeito, sem o quase. Como quando me beijavas o tornozelo e sorrias com ar de menino maroto e pedias que te beijasse o pescoço. O carinho com que me tocavas no rosto como se pincelasses uma tela em branco, vazia, mas pronta para ser preenchida de carícias e beijos enternecedores. Ou até mesmo quando te via de calções e em tronco nu, de costas para mim, a apanhar a camisola branca que deixavas a secar no meu estendal, no talvez nosso estendal.

Depois voltavas a ser o quase. E isso entristecia-me como um dia de chuva. E depois eu duvidava da nossa felicidade, daquilo que tu me poderias dar. Daquilo que eu poderia continuar a dar.

Bem, pensei demais. Mas hoje, hoje não penso por não ter nada bom em que pensar. Hoje, hoje choro o passado que queria voltar a possuir. O teu quase perfeito ser, que afinal era tudo. E agora, agora não é nada, porque agora, agora escondeste-te de vez de mim, para não mais voltar. Sem sequer um adeus, escondeste-te com medo de eu te querer possuir e roubar o teu quase ser. Querer-te perfeito. Agora só te quero e não te tenho. Camaleão.


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